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O castelo de vidro

quinta-feira, outubro 29, 2015


Ela sempre fora um pouco sensível. Desmanchava-se em lágrimas com quaisquer palavras mais brutas, e fechava-se a qualquer sinal de que pudessem lhe quebrar a superfície. Não deixava que nada preenchesse o seu interior, e isso a fazia ter medo de sair voando com o vento, assim como um balão de ar. Preferia brisas mornas, nada de ventanias geladas ou quentes demais. Vivia assim, em cima do muro. Não era oito nem oitenta.

Ela era como diz aquela música, apenas uma rachadura em um castelo de vidro. Não permitia ser quebrada, no entanto. Deixava-se rachar, pouco a pouco, assim como a redoma em que vivia. Fechava-se em sua bolha e ali ficava, por horas e horas, por meses e anos. Acostumara-se a viver recolhida em sua concha, e sair para ver a luz não parecia uma boa sugestão; nem mesmo era considerada uma opção. E assim ela ia, aos poucos, rachando. 

Eu diria que ela era previsível, também. Os outros apenas podiam ver o que ela lhes permitia, ou melhor dizendo, observar pelas frestas que por entre ela ficavam. Frestas estreitas, quase invisíveis, e que não tinham muito a exibir. Ela mostrava apenas o que lhe convinha. Não deixava estilhaços no meio do caminho que a fariam ser mais do que era. Era apenas uma menina vivendo em um castelo de vidro, e não sobrara nada para que alguém pudesse ver.

Certo dia, porém, algo aconteceu. Ela ouviu um ruído, e depois outro, como se algo estivesse rachando. Desesperada, percebeu que quebravam o castelo em que vivia. Isto não durou um dia, ou oito. Durou meses, ou até anos. Ouviu ele indo ao chão, pouco a pouco, e tombando como se um terremoto tivesse invadido o seu mundo. Ouviu então mais um breve ruído, e a bolha também foi rompida. Sentiu-se despida, completamente invadida. Porém, não havia mais rachaduras, ou bolha. A luz finalmente podia entrar.

Caiu-lhe a máscara, agora já poderia ter um rosto. Livrou-se de tudo que lhe fazia ficar presa no mesmo lugar; de sapatos, de roupas, de ideias. Até mesmo de pensamento. Decidiu ser um papel em branco, pronto para se deixar ser escrito. Decidiu preencher-se com novos sabores. Doce ou amargo, para ela tanto fazia. Só não queria estar de passagem com um sabor qualquer sem saber qual gosto lhe provocaria maior arrepio.

Percebeu-se, pouco a pouco, mais leve com a sua nudez. Deixou que os outros a conhecessem por inteiro, conheceu os outros por inteiro. Já não tinha medo de quebrar, ou de ser quebrada. A vida é sobre juntar os pedaços e começar de novo, pensava ela. Foi então construindo o seu castelo novamente. Mas agora, ela já não vivia dentro dele. Ele vivia dentro dela. E sabe do melhor? Ela aprendeu a deixar os outros entrarem.

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4 comentários

  1. "Decidiu-se preencher com novos sabores." Me senti assim quando vim pra Australia. Esse texto sou eu todinha antes da minha aventura fora do Brasil. Senti pertencimento enquanto lia teu texto sabe? Muito muito bom. Beijos

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    1. Beca, fico muito feliz que tu tenha se identificado com ele, que amor! E eu acho incrível essa tua coragem de ter se mudado pra tão longe, e realmente o sentimento que passa é a vontade de provar novos sabores, novos ares. E o mais legal é que eu não tinha pensado por esse lado quando escrevi o texto (de mudar de país). Muito obrigada <3 Beijos.

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  2. "Percebeu-se, pouco a pouco, mais leve com a sua nudez. Deixou que os outros a conhecessem por inteiro, conheceu os outros por inteiro. Já não tinha medo de quebrar, ou de ser quebrada." Acho que é um dos seus textos que mais me descrevem, Mari. Adorei ele do começo ao fim, e diz muito sobre muita coisa ♥

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    1. Awn, que linda ♥ É muito bom saber que gostou e se identificou. Às vezes a gente precisa permitir que os outros cheguem mais pertinho de nós sem medo algum; aprender a nos libertarmos e sair da nossa própria bolha. Obrigada pelo carinho =)

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