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A crise dos 18

sexta-feira, abril 10, 2015



-Agora já pode ser presa! - eles exclamam, alterados. Comemoro junto, esquecendo-me de que ser presa não é meu objetivo nem agora, nem em 30 anos.

Com quase 18 anos, a gente se pega esperando pelo próximo aniversário só pra ter um gostinho de vida adulta. A gente preza pela tão desejada - e de certa forma, inatingível mesmo com dezoito - liberdade, e a gente jura que essa é uma das melhores coisas que podem acontecer nos últimos 5 anos. É claro, não posso negar que é uma das melhores épocas de nossas vidas. Objetivos. Metas. Sonhos e paixões. E mais do que tudo, um caminho inteiro a ser descoberto pela frente.

E quando a gente menos espera, chegam os tão esperados 18. Muita coisa muda. Muda na nossa mente. A gente vê que nosso crescimento pessoal se fez presente esse tempo todo, e não em apenas um dia que simboliza a data de mais um ano completo. A maturidade - pra alguns - ganha peso, e a gente vê que nosso mundinho é um bom tanto a mais do que a gente pensava, e que, como diz aquela frase clichê, nem tudo na vida são flores.

Com 18, a gente vê que machucar o joelho e voltar com as mãos sujas de caneta colorida pra casa nem era tão ruim assim. A gente vê que todo aquele drama de uma criança no supermercado pra ganhar um brinquedo nunca foi necessário, e que agora nossos dramas têm outras caras e nomes. A gente vê que os 18 parecem 8, porque o tempo não mede esforços pra se fazer passar em frente aos nossos olhos sem nossa percepção. Percebemos que os nossos amigos, que iam envelhecer ao nosso lado, já nem se lembram de mandar uma mensagem. A gente vê que aquela matemática da 3ª série, quando 3x3 era 27, nem era tão difícil. Hoje tudo é apenas uma questão de perspectiva.

Com 18, a gente percebe que logo vem os 20, e que as 24 horas de um dia parecem não chegar pra tanta coisa. E com os 25, a gente percebe que não valoriza o café tomado às pressas pela manhã antes de ir pro trabalho, porque é preciso chegar em tempo. A gente percebe que está sempre atrasado, porque tudo é pra ontem. Percebe que não tem tempo pra nada. Que pra nada tem tempo.

A gente se pega vendo muitas coisas passarem em frente aos nossos olhos, se arrependendo e prometendo que não vai fazer de novo. Mas ah, a gente faz. E a gente jura que precisa viver os sonhos, não sonhar pra viver - porque não podemos sair derrotados. E a gente esquece do sonho, a gente esquece do tempo. Vivemos a nossa falta de tempo.

Com 18, a gente se pega nessa urgência por viver, essa necessidade de fazer tudo no mínimo tempo possível, pra sobrar tempo. A gente se pega numa busca incansável pelo curso que vamos seguir na faculdade, porque é claro, não dá pra deixar pra depois. "É perda de tempo!", dizem eles. Se pega decidindo o quanto vamos ter que correr atrás pra conseguir a carreira dos sonhos, porque tem que ser o que vamos fazer pro resto da vida. E obviamente, precisamos seguir alto que esteja em alta no mercado, porque não dá pra seguir sem um futuro garantido. É tipo um teatro: tudo tem que ter roteiro. 

A gente vive na busca por minutos, mas a gente se perde no meio deles. A gente corre pra se realizar, e no meio dessa loucura toda, desse tempo todo, a gente esquece do motivo pelo qual estamos correndo. Não lembramos mais do lugar no qual queremos chegar.

Antes do dezoito, eu percebo que a crise dos 18 já chegou. E a gente se pega correndo. O tempo contra nós.

E a gente contra o tempo.

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