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As promessas que eu não te fiz

sábado, março 14, 2015


Pra ler ao som de: Esteban- Canal 12




Nunca fui moça de fazer favores, e nem prometi a ele que faria essas coisas. Mas por ele, eu fazia. Eu também nunca prometi que passaria a gostar do inverno por ele, mas confesso que 10°C já não era mais tão ruim. Era até bom. E ele ficava lindo com aquela jaqueta de couro e os cabelos escuros desarrumados pelas minhas mãos. A lareira aquecia ainda mais o nosso amor desastrado, e às vezes a gente tropeçava, derrubava um pouco de sarcasmo e esbarrava no ciúme. Mas era amor de domingo. Eu era ele, e ele era eu. E assim, éramos nós.

Eu nunca prometi que só teria olhos pra ele, mas ah, eu tinha. Ele andava com ar de quem sabia o que fazia, e estava estampado na sua cara que ele era o dono do mundo. Ou pelo menos, do meu. Ele criou todas as borboletas que existem dentro de mim, e eu aprendi a amá-las. Eu sempre precisei de alguém, não que me desse a mão quando eu caísse, mas que me dissesse como levantar. Com ele, eu já não caía há tempos. Ele não enxergava limites, tampouco pedras na sua frente. Passava por cima de tudo, e ele era tão, tão meu.

Eu só preciso esquecer do quão lindo é vê-lo caminhar, seguro de si e como quem carrega pra longe todos os meus medos e me entrega todos os meus desejos. Eu só preciso esquecer de como eu fiquei horas passando os dedos pelos seus braços tatuados enquanto ele despontava um sorriso orgulhoso e pedia - com aquele olhar que eu não suportava -, para que eu rabiscasse o meu corpo também. Eu não quero, mas tenho que deixar pra lá a noite em que fomos a um estúdio fazer a minha primeira tatuagem e ele segurou a minha mão enquanto nossa frase favorita preenchia a minha clavícula. Eu só quero - e preciso - esquecer de como os seus olhos brilharam quando lhe cedi a parte de mim que eu tanto quis que pertencesse a ele.

Querido, eu nunca prometi que te deixaria ir embora, mas eu preciso cumprir essa promessa que faço agora. E mais do que tudo, eu também preciso partir. Tu se foi e eu fiquei aqui, no mesmo lugar. Talvez 27 passos pra trás, mas eu nunca, nunca consegui chegar à esquina.

Eu te vejo em todos os lugares. Eu te leio, te bebo e te ouço. Nas linhas daquele livro que diz tanto sobre nós e nas bebidas que se tornaram minha companhia todas as noites. Te ouço nas músicas que tocam nas baladas no mais alto volume, e que eu coloco nos fones quando finjo que o nosso mundo não acabou.

Eu não prometi que te amaria pra sempre, nem que seria a mulher dos teus sonhos. Eu nunca prometi que viajaríamos toda a Europa juntos, ou que aprenderia a tocar violão. Eu nunca proferi nada disso com a minha voz orgulhosa porque eu nunca fui de cumprir promessas, e cá entre nós, esse também não é teu forte. Tu me fizestes apenas uma promessa e a fez em cacos - que cortaram meu coração e nossos laços - pontudos e que não se juntam mais. A gente não se completa mais, e esses sentimentos que eu ainda tenho não servem mais pra mim, nem pra ti. Nunca serviram.

E agora eu te faço minha primeira promessa: não te faço promessa alguma.

Eu preciso voltar pra aquele canto, que antes era meu e depois ficou repleto de coisas tuas. Eu preciso reconstruir a minha rotina e aprender a andar com as minhas próprias pernas de novo. Eu só preciso da paz que eu não tenho e preciso parar de sonhar de olhos abertos, porque eu acabo sonhando alto demais e tu nunca esteve tão distante a ponto de não poder amortecer minha queda.

Eu vou voltar pra lá, e agora te peço que faça só uma coisa por mim: não me faz mais promessa alguma. Fica com essas que eu não te fiz, e a gente fica bem assim. Tu aí e eu aqui. 

Quem sabe outro dia eu te encontre em outro lugar.


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