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Para o moço da papelaria

quinta-feira, fevereiro 05, 2015


Ei, moço. É, você aí. Nossa história -que ainda me atrevo a chamar de história- foi tão curta. Não sei se lembras de mim, mas eu lembro de ti. Até do teu nome, e olha que isso é muito.

Tarde de terça-feira, verão de janeiro e um calor direto do inferno. E uma eu, com um tanto de pressa pra comprar uma pasta e uma lapiseira. Ah, e uma amiga junto, na busca pelo caderno pra faculdade. Nem sei o que é isso. Ainda.

Entro na papelaria, pronta pra afugentar os vendedores com as benditas 5 palavras: "Só estou dando uma olhada!", quando ele aparece, me desarmando com aquele cabelo loiro com cara de "acordei lindo" e um olhar de quem sabe o que faz. Talvez não é pra tanto, mas finjo que sim. É incrível o que a minha mente assimila a respeito de uma pessoa em apenas 2 segundos.

-Posso ajudar?

-Oi (droga, por que eu disse oi?)! Eu quero ver cadernos (minha amiga quer).

-Vem por aqui.

Eu fui, e minha amiga foi ver sei lá o quê. E os cadernos nem eram pra mim. E ele estava ali, olhando. Pra mim.

-Qual tu prefere?

-Não é pra mim. É pra ela. - apontei minha querida e sumida amiga.

-Ah...

Silêncio constrangedor, olhar constrangedor. Morri. Aí minha amiga chegou, e eu ressuscitei. Olhou, olhou, e não gostou de nenhum. Aliás, moço, tu mostrou péssimas opções. A melhor delas foi um caderno com um "Me beija" estampado na capa, que me deu vontade de escrever na primeira folha: "E me passa teu whatsapp!". Só que não.

Agradecemos pra nos livrarmos (sim, não sou muito fã de vendedores, mas tenho queda por alguns. Talvez por isso eu os evite: os simpáticos são meu ponto fraco) e fui ver lapiseiras. Minha amiga sumiu, de novo, e ele veio atrás de mim. Caramba, ele deve ter notado que eu fiquei intimidada. Só pode. Confesso que amo e odeio caras que me deixam assim: amo porque vou parar em outra dimensão, mas confesso que não é a melhor sensação do mundo pensar que se ele encostar em mim, vou levar um choque. Odeio ficar sem jeito.

-Quer mais ajuda?

Quero. Que festas tu vai?

-É... quero uma lapiseira. 0,7mm.

Novamente, ele sugeriu péssimas opções. Não deveria ser vendedor. Só se fosse de sorrisos.

- E aquela? - apontei uma outra. - É 0,7?

-Olha, pior que é! Certinha pra ti.

Eu olhei pras outras cores, e ele viu. Pegou uma lapiseira cor-de-rosa e entregou na minha mão. Gelei. Ou esquentei, sei lá.

-Prefere essa, né?

Ele deu um sorriso que abalou todas as minhas estruturas, mas ficou pior (ou melhor) ainda. Ele pegou na minha mão, e automaticamente perdi a capacidade de olhá-lo nos olhos. Deus, o que era isso?

-É só pra arrumar aqui...- ele disse, ajustando a lapiseira, e dando aquele sorriso desestruturador de novo.

Ah, que pena.

Então ele soltou a minha mão. Isso deve ter durado uns 2 segundos, mas juro que foram 50. Perguntou se era só isso e me entregou a comanda da comissão. Aí, eu descobri o seu nome. Foi a última vez que olhei - ou a primeira? - naqueles olhos castanhos. Minha amiga finalmente voltou, e pareceu não notar que minha cabeça estava em outro mundo e que eu respirava outros ares. Ainda não decidi se foi bom ou ruim ela ter sumido. Fui pra fila ainda meio estranha, e então lembrei de uma coisa.

Eu tinha esquecido que queria comprar uma pasta.

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2 comentários

  1. Nesses momentos que ficamos pensando se a outra pessoa percebeu todos os detalhes que percebemos ou se nós só estamos sendo "idiotas" por percebê-los... Espero que a segunda opção não seja verdade, já que isso acontece com frequência, tipo com algum cara no ônibus ou na sala de espera do dentista

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    1. Pura verdade. Sempre penso que queria saber se a pessoa viu o mesmo que eu ou se não foi recíproco... ficamos com a dúvida hahaha ):

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