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Metamorfose

sexta-feira, janeiro 30, 2015


Eu a vi pela primeira vez em uma tarde sábado. Não estava ensolarado, e as ondas do mar se atropelavam, avançando violentamente contra a areia. Tudo parecia como ela. Cecília era tempestade, mas caminhava sobre algodão.

Ela tinha a lua crescente no sorriso, e seus cabelos castanhos cobriam as costas brancas como marfim. Seu sorriso era tão lindo que doía. Doía imaginar perdê-lo, para a vida ou alguém. Meu amor por ela era tão grande que escorria pelos olhos úmidos de orgulho e transbordava nos beijos que tanto lhe dei. 

Cecília era como uma lagarta. No auge dos seus 18 anos, via em mim seu porto seguro. Eu a ensinei como desabrochar, como andar e como voar. Tive a imensa felicidade de receber seus beijos de menina e seu amor de mulher. Seus dedos finos carregavam unhas sempre pintadas de vermelho, e seus lábios eram naturalmente rosados. Proferiam palavras que carregavam doçura e leveza - cansei de tentar memorizar as frases ditas por aquela voz-, mas eram tantas e tão complexas, que ao menos consigo lembrar. Só lembro-me da minha nuca arrepiada ao seu toque e de seus lábios de encontro aos meus. Dos cafés que ela preparava com carinho, e das noites em que a apressei para sairmos enquanto ela desajeitadamente tentava colocar o sapato de salto. Ela sempre ficou linda de sapatilhas azuis.

Lia criou asas e tornou-se uma linda borboleta. Deixou seu casulo aqui, em minhas mãos desarmadas, e foi procurar novos horizontes. Prometíamos que daríamos as mãos e voaríamos juntos, para longe, para o mundo. Ela voou para longe. Mas não foi comigo.

Eu não sei explicar o vazio que ficou. É simplesmente isso: um vazio. Sinto-me nu, sem lar e sem chão. Apesar disso, as lembranças me atordoam a cada minuto do tempo dilacerante que não passa. Ela era o tipo de mulher que todos amam, que ama a todos. Que para na frente do mar, olha para o céu limpo e sorri. Que come o resto do bolo com jeito de criança e que faz guerrinha como uma. Que fica linda só com uma camiseta minha. Que fica linda sendo minha.

Cecília é a mulher que eu queria nunca ter perdido.

Essa carta é para você, futuro amor da Lia. Minha eterna Cecília. Cuide dela com carinho, pois apesar de conseguir voar, às vezes ela cai. O sorvete preferido dela é de uva, mas ela odeia comer uvas. Ela tem mania de morder a boca do lado esquerdo e de comer chocolate até a barra acabar.

Ah, ela é apaixonada pela vida.

E eu por ela.

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