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A menina da casa do lado

domingo, janeiro 11, 2015


Ela era verão. Era sol, jardim de primavera e vento fresco de fim de tarde. Eu a vi pela primeira vez em uma quinta-feira: estava sentado na varanda quando vi uma garota carregando desajeitadamente uma caixa enquanto atravessava a rua. Ela parou no portão da casa ao lado da minha, largou a caixa no chão e ajeitou os cachos acobreados do seu cabelo. Pegou a caixa novamente e entrou no pátio. Me olhou, surpresa, e deu um sorriso tímido. Eu sorri de volta.

Poucos dias depois, me peguei batendo na sua porta. Ela atendeu, com uma expressão despreocupada, um jeans rasgado, uma camiseta da Marilyn Monroe e um cigarro na mão. E um meio-sorriso. Ele era tão puro.

Ela não perdia tempo. Ela era segura de si e de mim. Era um pássaro livre, e batia suas asas com doçura e um tanto de melancolia. Às vezes seus olhos traziam um tom de tristeza, mas eu os amava. Eles eram meus, assim como ela. Ela era vento sul. Era mar, era minha cantora de jazz. E ela sorria como Deus. Seu nome era Elizabeth. Lizzie.

Lembro-me até hoje do dia em que percebi que a amava. Que amava o jeito com que ela segurava o cigarro na ponta dos dedos enquanto seus lábios tocavam a garrafa de uma bebida qualquer que compramos. Eu amava o jeito que ela me empurrava quando estava com raiva. Eu amava a falta de prudência dela. Eu sentia seu hálito de menta e cigarro próximo à minha boca, e fechava os olhos, pedindo por mais. Ela me dava todas as drogas que eu queria. Mas ela era a maior de todas.

Estávamos em uma praça à noite. Eu estava sentado, bebendo uma cerveja, e ela repousava suas pernas pálidas no meu colo, enquanto acendia outro cigarro.

-Amor, eu quero dirigir. - ela disse, com sua voz rouca e um olhar encantador.

Ela emanava luz. Ela não fazia chuva, nem frio. Ela era fogo. Era chama. Meu combustível. Ela me dopava.

-Pra onde, Lizzie? - tomei outro gole.

Ela deu um riso safado, e me olhando com avidez, disse:

-Pra qualquer lugar, querido.

Eu a tomei em meus braços, e a beijei. Estupidamente apaixonado. Beijei-a com vontade, desespero e amor. Era tanto amor que doía. Ela me puxou pela jaqueta de couro e parou bem próxima do meu rosto. Seu olhar era curioso, quase infantil, e ela parecia ter a inocência de uma menina. Acho que nunca ninguém fez eu me sentir assim, no topo. No topo do mundo.

-Eu te amo, John.

-Eu também te amo, Lizzie.

Subimos na moto, e ela acelerou. Ela gritava, e sorria. Eu amava vê-la feliz. Segurei em seus quadris e fechei os olhos, sentindo a velocidade. Ela também era liberdade. Era noite estrelada, era adrenalina. Ela era tudo.

Dizem que as histórias trágicas são bonitas. Românticas, inspiradoras. Bem, não são. Não foi. Eu posso escolher como contar essa história e posso fazê-la bonita, mas na vida real, eu não posso mudar o final. E nem irei mudá-lo aqui.

Estávamos bêbados, como sempre. Mas estávamos felizes. Só que ela não viu o carro do lado oposto, e nem viu que estávamos do lado oposto. Ela não viu, e eu a vi. Sem vida, com os olhos abertos fixos nos meus. Implorei pela sua vida, rezei pra quem eu nem acreditava, chorei as lágrimas que não tinha. Ela me viu até o último minuto.

Dizem que o tempo cura tudo. Mas quanto tempo eu preciso até não precisar de tempo?

Eu não consigo olhar pela janela sem pensar nela. Ela era verão, era sol. Não fazia chuva nem frio. E eu juro. Hoje está nevando.


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