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Inexistência

terça-feira, setembro 16, 2014

Eu estava há meses longe de casa. Não sei por quê. 
Não achei ele, ele me achou. E ele fez eu me encontrar.
Ele acendeu um cigarro enquanto dirigia pela estrada. As estrelas brilhavam por nós. Eu observava as ondas se chocarem contra as pedras e sentia o vento contra o meu rosto. A noite era nossa. O mundo era nosso. Virei o rosto em sua direção, e esbocei um sorriso ao vê-lo ajeitar o cabelo bagunçado. Lembrei de todas as nossas noites, de nossos destinos sem destino. Senti sua mão percorrer a minha nuca e arqueei as costas, vulneráveis ao seu toque. Lembrei do quanto minha fraqueza ficava exposta para ele. A música fazia eu me sentir estranhamente calma.
Sou mais forte do que todos os meus homens, exceto por você. 
Paramos em uma cidade qualquer, não lembro o nome. Deixei-o me levar para onde quer que fosse.
Ele me pegou pela mão, e fez uma expressão como se soubesse o que estava fazendo. Me levou pelas ruas desertas - eram três da manhã - e disse que me mostraria o lugar do qual sempre falava. Eu sorria, enevoada pelo cheiro que sua nuca exalava, e acompanhava seus passos rápidos em meio às calçadas irregulares. Pulei em suas costas e aproveitei aquele curto momento, envolvendo meus braços em seu corpo e colocando a mão em seu coração. Pulsava tão rapidamente quanto o meu. Era recíproco.
Chegamos a um prédio antigo, que poderia desabar a qualquer momento. Mas não deixava de ser, de certa forma, belo. Sempre admirei lugares como aquele. Ele colocou o braço em torno da minha cintura e sussurrou algo em meu ouvido que não lembro. Senti minha pele arrepiar e desejei que aquela noite perdurasse. Entramos no prédio e fomos ao subsolo, onde havia uma espécie de depósito.
No centro, havia um sofá. No canto, uma cama antiga. Quadros na parede, um rádio, algumas garrafas de vinho e um perfume no ar. O dele. Ele. Eu.
Ele levou seu dedo indicador aos meus lábios e me mandou ficar em silêncio. Colocou uma música para tocar. 
Você tem a música em você, não tem?
Tocou meu braço e encostou seus lábios na minha nuca. 
Mexa-se, querido. Estou apaixonada. 
Seguimos a música. Senti o calor da tua pele se transferir para a minha.
Acho que nunca ninguém me fez sentir tão extasiada. 
Eu sabia que nunca me cansaria daquilo. Ele fazia eu me sentir tão viva. Ele tirava de dentro de mim aquilo que eu nem sabia que tinha. E eu o desejava por inteiro. E eu o tinha. Deixei-o tomar conta de mim. 
Abri os olhos e olhei para o lado. Vi seu corpo nu deitado sobre os lençóis e o observei dormir. Tão sereno. Acho que ele sentiu meu olhar, pois abriu os olhos e me abraçou forte. Senti um arrepio percorrer a espinha e o calor de sua boca em meus ouvidos. Supliquei para que ele não me soltasse. Mas ele soltou. Ele disse que precisava me contar uma coisa, e as lembranças da noite passada ecoavam na minha mente.
Sua voz era doce, quase terna. Percebi que a música ainda tocava no rádio.
Todos aqueles pequenos momentos que você disse que eu sou a sua garota.
Ele parecia tenso, e sua respiração estava contida.
Você me faz sentir como seu mundo.
Então ele sussurrou: "Nós não estamos mais aqui."
Eu engoli em seco, e não entendi. Despontei um sorriso sem jeito e toquei seu rosto. Seus olhos estavam fundos, mas pareciam tranquilos.
Não diga que você precisa de mim quando você está indo embora.
Hesitei, por um momento. Não podia ser. Todas aquelas noites, todos aqueles dias, foram uma mentira?
Ele assentiu, como se adivinhasse meu pensamento.
Então eu entendi. Aquela noite, em que fui achada, ele me achou para que eu me encontrasse. Para que eu entendesse. Assim como eu, ele já havia partido. Mas precisávamos, por algum motivo desconhecido, partir juntos, e ali estávamos.
Havia chegado a hora.
Segurei suas mãos e não contive as lágrimas. Deixei-as escorrerem pelo meu rosto que já não era real. Segurei seu queixo e dei um beijo em sua testa. Eu queria que aquele momento perdurasse.
E perduraria, afinal, agora eu o tinha. E ele tinha a mim. Ele me teve desde o momento em que me encontrou.
E ali estávamos, juntos. 
Partindo.

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