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Carta àquele dia que não foi

segunda-feira, julho 28, 2014


5 de outubro.

Você andava com pressa naquela manhã de terça. Tinha uma entrevista de emprego importante. Arrumara-se toda: cabelo preso em um belo coque, uma calça preta, salto e uma camisa branca. Apesar do visível nervosismo, não perdera sua graciosidade.

Me lembro bem: vinha a passos largos na calçada, quando foi atravessar a rua. A carteira caiu da bolsa bagunçada que você tentava desesperadamente ajeitar em seus ombros. Peguei a carteira e chamei-a, admirando seus curiosos olhos azuis que se destacavam junto da mecha escura pendendo no seu rosto.

-Obrigada.

-Não há de quê.

Foram apenas alguns segundos, e me peguei observando seus lábios fartos. Estava tomado por uma incrível necessidade de conhecê-la melhor. Você parecia tão... diferente. Surreal. Como se tivesse feito parte do meu passado, e devesse fazer parte do meu futuro. Absorto em meus pensamentos, te convidei para beber algo à noite. O mais estranho? Você aceitou. Tocou em meu ombro e senti um choque.

Estava eu sentado em um bar qualquer, esperando. Estava nervoso, não sei exatamente o motivo. A porta se abriu e você entrou com o vento gelado. Batom vermelho e uma expressão convicta, mas ao mesmo tempo, gentil. Veio ao meu encontro e ao abraçar-me, novo choque. Você me contou a sua vida, eu contei a minha.Você, 23. Eu, 25. A cada palavra que sua boca proferia, eu me perdia mais no teu olhar persuasivo. Apesar de ser incrivelmente confiante, conseguia ser a mulher mais doce e frágil deste mundo. Entrei na tua vida. Pude te ter. Cuidar de ti. Te abraçar, te tocar. Nosso beijo na outra sexta foi como ouvir uma música que ainda não sei como descrever: estive em outro mundo, em que meus pés não tocaram o solo inexistente e meus ouvidos ouviram o silêncio. Choque.

4 meses já haviam se passado. Até aquele momento, uma noite qualquer. Eu estava contigo. Bebíamos algumas, falávamos coisas. Sonhávamos. Me deixei tomar pelo teu corpo. Foi como se meu coração batesse diferente. Como se, a qualquer momento, você fosse esvair-se por entre meus dedos, e meu mundo, desmoronar. Entre um beijo que tirou o pouco ar que restava em mim e um gole de uísque, você sussurrou, como se ouvisse meus pensamentos. "Meu querido, você sabe que eu já esvaí..."

4 meses atrás, 5 de outubro.

Você andava com pressa naquela manhã de terça. Tinha uma entrevista de emprego importante. Os cabelos negros estavam presos num coque e os olhos claros e extremamente confusos percorriam a multidão. A passos largos, você estava atravessando a rua. Eu a observava, com toda a sua graciosidade. A carteira caiu. Bolsa bagunçada. Você, desajeitada. Eu, intensamente atraído. Simplesmente senti que precisava te conhecer. Peguei a carteira para entregá-la. Chamei, mas você não ouviu. Estava com fones de ouvido. Então, ouviu. Mas não viu.

Você olhou no fundo dos meus olhos, em extremo desespero. Implorando por ajuda. Tarde demais. O carro foi mais rápido.

Senti meus pulmões perderem o ar ao vê-la perder o seu.

Então, eu tive que inventar um futuro daquele dia que não foi. Daqueles que não foram. Depois de 4 meses, eu finalmente estava te deixando partir.

Descanse em paz, Ana.

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