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O peso do sempre

sexta-feira, julho 25, 2014



Cheguei no meu apartamento e observei-o vazio, como todos os dias. Desde que havia decidido morar sozinha, muita coisa havia mudado. Inclusive eu. Antes era eu com você, agora era sem. Tive que me acostumar a caminhar com as minhas próprias pernas, que antes eram tão suas. Era tudo tão seu. Você fez com que as flores que cobriam a tiara do meu cabelo murchassem, e eu tive que aprender a ver a primavera como antes, mesmo sem elas. Foi um pouco difícil, mas eu consegui.

Decidi que ia te dar mais uma chance. Afinal, você sempre implorava por outra. Eu sabia que no fundo só estava querendo me consolar um pouco, mas não podia admitir pra mim mesma. Pelo menos não hoje.

Resolvi fingir que o teu "por uma noite" ia ser um "pra sempre".

-O sempre pode ser hoje. Pode ser ontem, amanhã. Mas tu sabe que é pra sempre.

-Como tu pode dizer isso?

Silêncio.

Essa foi a nossa última conversa, pouco antes de tu sair batendo a porta da sala e sussurrando algo que não consegui ouvir. Ainda bem que não ouvi. Mas sabe, por uma noite ainda poderíamos ser nós.
Chamei uns amigos. Mas tu era o ator principal do meu roteiro. Tu aceitou, claro. Trouxe umas bebidas. Coloquei uma música, baixei as luzes. Me deixei tomar pelo clima, e a noite estava boa. Te olhar de novo não era tão ruim assim. Era até confortante.

Alguns copos depois, você chegou perto de mim e sorriu. Sorriu como antes, como ontem. Como sempre. Me deu um abraço apertado e disse que sentia saudades. Eu também sentia. Sempre. Tu estava com uma camisa xadrez azul, e o cabelo um pouco bagunçado. Baguncei mais. Te baguncei, te beijei, te senti. Então, estávamos todos reunidos na sala, cantando uma música antiga que tocava na rádio.

-Aos velhos tempos! - você falou.

-Ao sempre. - completei.

Você deu um sorriso torto e me levantou do chão. Meus pés flutuavam, e minha cabeça girava. Eu caía, me enterrava no fundo dos meus sentimentos que estavam guardados e trancados a chave até então. Mas eu resolvi trazer tudo à superfície. Não podia deixar eles se afogarem.

Não sei como, mas tu lembrou que a minha Polaroid ficava guardada na segunda gaveta do armário do meu quarto. Então trouxe ela pra mim. Jogou teu braço por cima do meu ombro, abriu um sorriso. Pose pra foto. Meio fora. Flash. Um beijo. Um "tu sabe que sempre foi pra sempre". Sorri.

Acordei meio perdida, meio sem rumo. Olhei pro lado. Ninguém ali. A casa estava uma bagunça, e eu, sem paciência pra arrumar. Olhei pro sofá e senti um aperto. A foto.

Observei nossos olhares, que sorriam. Uma risada estampada na cara e um abraço desajeitado. Eu te olhava de canto, com cara de boba. Peguei um isqueiro e aproximei da foto. Observei enquanto as chamas consumiam o papel.

A foto queimou, e o momento se foi. Mas a lembrança ficou.

E o "pra sempre"? Acho que ficou também. Sempre fica.

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